Não são apenas dicas de posturas relacionadas ao pensamento crítico, mas ao comportamento físico que um professor deve ter ao ministrar suas aulas.
Apesar dos pesares minha formação como professor de Matemática foi muito prazerosa, pois tive ótimos orientadores. Nesta postagem quero compartilhar algumas dicas de posturas que todo professor de Matemática (e outros) deveria usar em suas aulas.

Não são apenas dicas de posturas relacionadas ao pensamento crítico, mas ao comportamento físico que um professor deve ter ao ministrar suas aulas. A prática destas posturas traz alguns benefícios tanto para o professor quanto para o aluno. Essas dicas parecem óbvias, mas não para quem está começando na licenciatura. Sempre recebo e-mails de professores iniciantes pedindo algumas orientações.

Claro que as dicas se aplicam para professores de qualquer disciplina. Algumas são específicas para professores de Matemática. Acompanhe.

6 dicas de posturas para professores de Matemática [e outros] em sala de aula


1) Nunca explique um conteúdo enquanto escreve no quadro

Esta foi uma das minhas primeiras lições que aprendi ao ministrar mini-aulas para os meus orientadores durante as disciplinas finais do curso.

Os motivos são simples:
  • Seu corpo atrapalha totalmente a visão da escrita no quatro;
  • Os alunos não sentem confiança ao vê-lo sempre virado para o quadro;
  • Em casos especiais um portador de surdez não conseguirá uma leitura labial (já vi esse caso de perto).
Qual o correto?
  • A escrita matemática deve ser mostrada em seu passo a passo, ou apontada usando algum instrumento, como uma régua de 80 cm ou laser, na medida que a escrita matemática seja desenvolvida. Se a extensão da escrita não for muito longa, o professor vira-se e explica o passo a passo por completo.
  • Havendo espaço suficiente, o ideal é que o professor desenvolva a escrita matemática em silêncio, e em seguida explique cada momento da escrita, estando lateralmente alinhado com o quadro. A posição perpendicular do quadro em relação ao ombro é o ideal.
  • Dependendo do tamanho do quadro, divida-o em duas ou três partes com uma linha vertical, desta forma terá mais espaço para o seu corpo ficar ao lado do quadro e conseguir explicar o que escreveu do outro lado. De quebra facilita a visão do aluno, que poderá adiantar a tarefa mesmo antes do professor encerrá-la.

2) Cuidados com a voz

Cuidados com a voz
Imagem: GettyImages
Dos 50 minutos de cada aula que ministro, mais ou menos 40 minutos é com participação ativa, isto é, explicando teorias matemáticas, praticando exercícios, tirando dúvidas, etc. Imagine que durante dois expedientes é assim o dia todo.

Raramente me sento e fico olhando os alunos fazerem alguma tarefa. Sempre estou caminhando pela sala orientando de alguma forma. Quem sofre mais com esse ritmo não são os meus pés, e sim a minha garganta.

A dica que deixo é sempre beber água a cada 10 minutos ou quando sentir a garganta seca ou irritada. Entre uma explicação ou outra beba um pouco de água e se sentirá bem melhor.

Por isso, sempre tenham em mãos uma garrafa térmica (utilizo essa, mas quero essa). Dê preferência para água mineral (não aquela adicionada a sais) e nunca use as garrafas térmicas todos os dias sem antes lavá-las adequadamente. O mal uso dela pode causar algum problema por conta de bactérias dentro ou nas bordas da garrafa.

Leia esses 14 cuidados para manter a voz saudável.


3) Sempre use um tom de voz claro

No tópico 2 escrevi sobre a quantidade de tempo que se esforça para ministrar as aulas e os cuidados necessários com a voz. Agora, deve repensar sobre a intensidade do seu tom de voz, mesmo que em um curto espaço de tempo que ministra suas aulas.

O tom de voz é muito importante para alcançar todo o ambiente. É desnecessário forçar a voz para dar ênfase ao que se fala. É recomendável que o tom de voz seja compatível com espaço total da sala. Dependendo desse espaço, a reverberação do som pode atrapalhar o entendimento do que se fala.

Nem muito baixa, nem muito alta é o ideal.

Parece um fator primordial, no entanto, muitos professores (maioria mulheres) carregam uma timidez em sua fala, ocasionando em um tom de voz baixo, e, por consequência, afeta seu desempenho durante a explicação e causa desconforto para quem está tentando ouvir.


4) Atente para a escrita matemática

A nomenclatura matemática deve ser rigorosa e absoluta. A organização da escrita matemática, seja no quadro ou digitações de avaliações deve ser também rigorosa.

Atente para a escrita matemática
Há conteúdos matemáticos cuja escrita matemática exige mais organização do que em outros conteúdos, como frações, radiciação, potenciação, logaritmo, etc., pois nem sempre o professor iniciante tem habilidade para escrever em quadro ou digitar suas provas em um editor de texto matemático.

É muito importante que a simbologia matemática seja clara e não traga dúvidas para o aluno. Coloque em mente de que nem todos os alunos, principalmente do 6º ano, não tem a percepção matemática para a linguagem matemática correta. Às vezes, o tamanho de um simples traço de uma fração pode causar dúvidas.

Se você é professor iniciante e não tem habilidade de escrever no quadro durante uma longa linha horizontal, divida o quadro em partes, encurtando assim o tamanho de cada linha.

Leia o texto Professores, organizem sua escrita matemática para mais exemplos e instruções de como organizar a escrita matemática.





5) Não explique, oriente.

Independentemente da visão pedagógica que você adota para as suas aulas, Matemática tem um fator a mais de dificuldade. Isso não é óbvio? Afinal, trata-se de Matemática! Sim, porém as aulas de Matemática não se resumem apenas em explicar o conteúdo no quadro e fim.

Mesmo com uma, duas ou três aulas, alguns alunos continuam com dificuldade para resolver determinados tipos de exercícios. E é nesse ponto que uma boa orientação faz muita diferença. E não me refiro a dicas de como conseguir terminar uma equação ou algo parecido. Dicas diretas.

Orientar, nesse contexto, quer dizer mostrar as possibilidades que o aluno tem para resolver problemas matemáticos, porém eles não enxergam com clareza. É possível fazer isso sem usar nenhuma fala matemática.

Um boa tática que utilizo e tem dado efeito positivo (na maioria das vezes) é a seguinte:
  • O professor
    • Conteúdo ministrado. ok! 
    • Tira dúvidas. ok! 
    • Explicação de exercícios resolvidos. ok! 
    • Delega exercícios básicos e médios para ver o nível de entendimento da turma. ok! 
  • O aluno (orientado pelo professor) 
    • Inicia um exercício matemático básico e consegue responder. ok! 
    • Inicia um exercício matemático médio e não consegue responder. ops! 
      • Tenta resolver o exercício mesmo não sabendo terminá-lo. 
      • Consegue resolver o exercício mesmo tendo a certeza que errou em algum passo a passo. 
      • O professor verifica a resposta e de imediato nota o ponto em que o aluno está errando. Logo, é nesse passo que o aluno tem maior dificuldade.

Veja que não são orientações matemáticas para ajudar o aluno com uma atividade. São orientações para que ele entenda o porquê de estar errando um exercício em algum passo a passo do seu desenvolvimento.

Em Matemática é muito comum encontrarmos respostas finais erradas em exercícios, sendo que o início dos cálculos estavam corretos. No entanto, é mais improvável começar a resposta de um exercício de forma errada e encontrar a resposta correta.

Mostrar ao aluno onde está se equivocando é mais proveitoso para ele, do que dar um resposta pronta e acabada, em que o aluno não teve nenhum ato de pensar.

Você, como professor, assistiria a sua aula?

Independentemente das estratégias que usamos para as aulas de Matemática, seja com materiais concretos/manipuláveis ou aplicando TIC, o aluno deve ser o centro pela busca de sua aprendizagem.

Explicar é uma coisa, orientar é outra totalmente diferente.

Recomendo que leia o artigo citado abaixo.

Deixar o aluno dar aula por você, significa colocá-lo como centro da pesquisa pelo conhecimento. É colocá-lo como o agente principal na busca do seu próprio desenvolvimento escolar. E isso já não era feito? Não é o papel da Educação formal? Não é o papel do professor? [Trecho do artigo Deixe seu aluno dar aula por você]


6) Não comporte-se com um aluno

É muito bom ter uma relação saudável com nossos alunos. Essa relação pode ser uma saída para quebrar o paradigma de que o professor de Matemática é carrancudo, mal humorado, e outros adjetivos que fazem com o que aluno sinta-se distante e com receio de participar da aula.

Nenhum estudante é “forçado” a gostar de um determinado professor, porém, quando o professor consegue conquistar e fazer com ele goste de Matemática, História, Português, etc., o seu desempenho aumenta consideravelmente e sua relação com o professor mudará naturalmente. [Trecho do artigo 5 motivos que fazem alunos odiarem as aulas de Matemática]

Por outro lado, precisamos ter o discernimento de separar as coisas. A "liberdade" das descontrações em sala de aula, deve se limitar somente em sala de aula. Já vi casos de perto, onde o professor acabou cometendo uma agressão física com um aluno, depois de uma brincadeira exagerada de ambas as partes.

O bom humor não é característica de um bom professor, porém, é uma forma de chegar mais perto daqueles aluno mais introvertidos.

Tese de mestrado defende uma relação mais próxima entre professor e aluno. A finalidade: tornar o estudante mais ciente da própria capacidade.  A opinião da professora Rosemeri Vieira Dittrich: quanto mais afeito ao professor, mais o estudante gostará da matéria. [Trecho do artigo A Matemática do afeto]

As atitudes comportamentais de um professor em sala de aula reflete e muito em seus alunos.

Concluindo

Parecem dicas bobas não é mesmo? O fato é que nem sempre são aplicadas por professores veteranos na licenciatura. Por ser dicas que parecem óbvias, são as mais esquecidas e dadas com as menos importantes por nós professores.

Quem mais sente a ausência dessas características são nossos alunos, ao ponto de, às vezes, tomar a palavra e lançar uma voz de correção, como já presenciei em plena sala de aula causando desconforto ao professor.

Ao ler esse texto não julgue esse autor como o melhor professor do mundo. Tenho minhas falhas e a cada dia aprendo mais com elas e tento não repeti-las. Em vez disso, tento melhorar de uma forma ou de outra, sempre buscando a melhor postura durante as aulas.

Conteúdos:


Edigley Alexandre

Edigley Alexandre

Graduado em Matemática pelo DME na UERN em 2007, leciona Geometria, Matemática e Física. Blogueiro Part-Time desde 2007. Membro do Google+ Create em Português. Seu interesse é compartilhar conhecimento matemático interligado à Tecnologia da Informação e Comunicação, assim como artigos de opinião sobre Educação, Matemática e Educação Matemática.

Os comentários serão moderados pelo autor do blog. Respondo todas as segundas-feiras, terças-feiras e finais de semana.

É muito bom ler comentários, porém atente para algumas regras muito importantes antes de enviar a sua colaboração para este artigo.


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8 comentários:

  1. Ótimo artigo.

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  2. Boas dicas, principalmente para quem nunca fez magisterio.

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    1. Ou até mesmo uma licenciatura.

      Abraço, Clair!

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  3. Ótimo artigo, principalmente para quem está iniciando a profissão!

    Você poderia criar mais artigos para ajudar quem está iniciando na área assim como eu, como por exemplo, dicas para preparar aulas ou como ser mais mais produtivo nessa questão (trabalho do professor "fora" da escola), pois é um dos pontos em que mais sinto falta de orientação...

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    1. Olá, Vitor!

      Que bom que gostou do artigo.

      Nele mesmo tem outras dicas para professores. Basta visitar cada link que aparece nesta postagem.

      Visite as outras categorias do blog ou pesquise pelo assunto que quiser, usando a caixa de busca do blog. Caso não encontre o que deseja, tentarei escrever um artigo abordando o tema enviado na sua sugestão.

      Um abraço e volte sempre que quiser.

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  4. Gostei das dicas foi muito proveitosas.Vou começar fazer licenciatura de matemática, abriu muito minha mente. Fazer esse curso é um desafio para mim pois sempre tive dificuldades em matemática, desde pequena fui criada a odiar essa matéria. Quero me dedicar e ser uma boa professora de matématica, pois nao há impossivel para Deus. Obrigada.

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    1. Obrigado!

      Que bom gostou do que leu. Espero que você faça um excelente curso. Se um dia lembrar, volte aqui e conte sua experiência. Te desejo muito sucesso.

      Um abraço!

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